Que maravilha é o céu, crianças! (para Elke Maravilha)

(Homenagem a Elke, falecida em 16/08/2016)

Painho, pra que essa chave tão grande? E essa barba branca, desse tamanho, esse camisolão? Vamos viver, dar risada, com a boca aberta, por que tanta seriedade aqui? Eu venho de um mundo colorido, divertido, sem preconceitos, não tem essa de pecado, não. Casei quantas vezes quis, beijei na boca, abracei, ri, chorei, não existe nada de errado quando se faz com o coração. Lembro de quando, pequenininha, vim parar num país estranho, quente e úmido, que me derreteu a alma que vinha congelada por tanto desgosto. Nós passamos a ser os estrangeiros, os esquisitos, os branquelos, mas o meu olhar de criança só via beleza naquele povo alegre e moreno. Fiquei bonita, mesmo diferente, aliás, até por ser diferente era bonita. Tive todos a meus pés, mas mesmo assim, nunca olhei ninguém de cima, apesar da minha altura e das minhas botas enormes…

Venham, crianças, me dar as boas vindas e me mostrar qual é a boa aqui do céu! Aqui tem música, dança, cantoria, buzina? Vou me vestir de nuvens, me enfeitar de estrelas, me maquiar com poeira cósmica! Nas costas, asas coloridas como penas de pavão, diademas de constelações na cabeça, saltos altos de caudas de cometa. Painho, me dê a mão, me leve pra cantar com os anjos, me dê um beijo bem estalado, customiza essa camisola, ai, que lindo esse anjo negro lá no canto!

Meu batom agora é da cor da aurora. Meu cabelo, dourado feito o por do sol. Em meus olhos, trago as cores e faces de todos que encantei com minhas risadas na Terra.

Crianças, não se preocupem comigo! Estou bem! Vou revolucionar isso aqui em cima, vocês vão ver!

(e com um beijo estalado, deixa uma marca de batom na bochecha de São Pedro…)

Respostas de 4

  1. Carla, que texto lindo! Em tempo de youtube, escrever parece ser um trabalho árduo, mas é o que demonstra nossa humanidade, nossa essência. Também escrevo e encontrar textos assim, lindos como a pessoa a quem ele se destina, é um bálsamo. Parabéns e obrigada por esse presente!

    1. Nossa, Leila, fico muito feliz de ver que você apreciou o texto que escrevi com tanto sentimento… também sou apaixonada pela palavra escrita, acho incomparável. Eu que agradeço de coração o seu comentário!

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