Chegadas e partidas

A amiga me liga e pede ajuda para vestir a mãe falecida para o sepultamento.

“Melhor um vestido, né? Que tal este?”

“É de mangas compridas”, digo sem pensar. “Está muito calor”.

Mas logo recuo, pensando na minha estupidez. Que importa o calor.

Aliás, que importa a roupa. O sapato. Maquiagem.

A tentativa de tornar a morte “aceitável”. Controlada. Arrumadinha.

“A casca não contém mais a sua mãe“. Tenho vontade de dizer, mas acho cruel. Me calo a tempo.

Chegamos a esse mundo cercados de cuidados, de sonhos. Sorrisos se abrem, presentes, aconchego.

Estamos nus na chegada. A primeira roupinha é um presente da tia. Vai servir por uma semana, provavelmente. Mas fica pra sempre na memória e nas fotografias.

Um bebê. Uma vida.

Uma casca.

Vai ser preenchida durante a vida. Com amor, com carinho, com cuidado.

Com desatenção, com ódio, com desprezo.

Vai ser moldada pelo que fizermos com ela. Pelo que fizermos por ela.

Essa casca vai se tornar gente. E será repleta de espírito, de amor, de dor.

Caminhará sobre a terra, de diversas maneiras.

Cumprirá seu destino.

Um dia, a vida a deixará. Não encontrará mais o caminho de volta.

E aí, voltará a ser casca.

Voltará a estar só. Sem calor, sem frio, sem suor ou arrepio.

Que importa a roupa?

Estamos sempre nus na hora da partida.

Mas a alma, ah… essa carrega toda a leveza das preces dos que a amaram.

E voa feliz, para longe, como um pássaro de arribação.

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