Vovô Vilhena e a arte de fazer amigos
Carla Vilhena
09 set 2016


A arte de fazer amigos

(Homenagem ao meu vovô Vilhena, que me iniciou nas leituras dos clássicos e na profissão de jornalista. Um homem de muitos e variados amigos.)

– Recebi 143 mensagens de felicitações.

Era assim que ele nos recebia à porta, quando entrávamos para o jantar em comemoração a mais um aniversário.

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O orgulho era visível. Seus amigos mais chegados estavam lá. Mas as centenas que ele havia feito em uma vida de suor e realizações, mandavam em cartas, postais e telefonemas o ânimo de que ele precisava pra continuar vivendo.

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Sim, ele estava muito bem para um octogenário. Seus exames não davam nunca nenhum problema. E ele chegou a mandar pra mim uma vez um exame de urina, com observações sobre a pressão arterial (“de menino”!) e detalhes sobre a próstata que me fizeram rir da lembrança de quando, numa das únicas vezes em que o vi baixar hospital, eu, a neta hipocondríaca, tive que sair do quarto ao ver a sonda que pendia ao lado da cama com urina misturada ao sangue. Corri para o banheiro e, quando minha mãe foi me procurar, estava desesperadamente tentando urinar, dizendo, “mãe, acho que também estou com problema na próstata”!

Voltamos ao jantar.

Seus amigos mais chegados já se acomodavam.

Um, velho comunista, divertidíssimo, que se aproveitava do status de melhor amigo para as provocações de sempre.

– Reaça, barbacenense, eleitor dos Andradas!

Ao que ele sempre respondia:

– “São tolices deste menino..”

O “menino” tinha quase setenta anos, o que para quem já estava virando a curva dos noventa, não deixava de ser verdadeiro.

O outro, um gay mais ou menos assumido, como todos na época, chegava sorridente, feliz de ter a companhia de uma família, já que a sua estava tão longe, no Maranhão.

E participava, meio que encantado, daquela família que o aceitava como ele era, sem fazer muitas perguntas.

Tinha ainda, um senhor com uma papada enorme e uma cara mais enorme ainda, que contava causos de sua cidadezinha e terminava sempre com a boca aberta, como quem perde o ar, de tanto rir.

Eu, relegada à mesa da cozinha por muitos anos (a mesa das crianças), desfrutava de meu recente up-grade para a mesa da sala, ouvindo as conversas deliciosas, que antes só conseguia captar em partes, ou na conclusão, quando estouravam as risadas.

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Histórias dos tempos de ministério, de política, de Barbacena, onde conheceu minha avó. Lá também ficava o orfanato agrícola onde ele crescera.

– “Lembro-me do único remédio que tínhamos, que era tão amargo, tão amargo, que ninguém ficava doente pra não ter que tomar aquela coisa”!

– “Trabalhávamos de sol na cabeça todos os momentos em que não estávamos estudando. Tanto que minha pele vivia coberta de feridas causadas pelas queimaduras.”

Ele provavelmente não estava brincando, pois imagino o quanto um menino com a pele clara e os olhos azuis deve ter sofrido num internato rural.

Outro ano, outra vez:

– “Recebi oitenta e quatro mensagens de felicitações e vários telefonemas.”

E assim foi.

Os anos se passando, os cartões e telefonemas definhando.

O divertido comunista, que ainda por cima tinha como namorada uma jovem mulata, um dia fez a passagem rumo à sua utopia.

O médico meigo e afeminado expirou delicadamente, ceifado pela doença ainda desconhecida nos anos 90.

O senhor de riso largo foi repousar para sempre na sua querida cidadezinha, fonte de inspiração de tantos causos.

Os cartões, que antes ocupavam todos os espaços vazios, passaram a se limitar a uma pequenina mesa de centro.

Seu mundo havia mudado.

Suas cartas, substituídas pelo e-mail, que ele nunca chegou a usar.

Os telefonemas, escassos, vinham agora da gerente do banco.

Nas caminhadas por Copacabana, os cumprimentos se tornavam cada vez mais raros.

Até que um dia ele se foi.

Decidiu, acertadamente, que um mundo sem amigos não vale a pena.

 









6 comentários


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  1. Junior

    Amo seu blog, leve, gostoso de ler. Você como jornalista é demais! Passa um carisma uma doçura! Se um dia lhe ver peço uma foto! Se um dia eu ficar famoso de dou uma exclusiva! Rs…. Combinado? Bjs. Ótima semana

    1. Carla Vilhena

      Combinado! Muito obrigada por deixar seu carinho aqui em forma de comentário!

  2. Thereze

    Parabéns! Adorei seu Blog, sou sua fã há muito tempo. Sucesso!

  3. Maria Eunice Marques Vilhena

    Você não sabe o quanto este post me sensibilizou. No seu avô reconheço um outro pai, diferente, mas tão amado quanto o meu próprio pai. Tenho vários bilhetinhos dele com declarações de amor a uma filha, reconhecendo, inclusive, o bem que fazemos, seu pai e eu, um ao outro. Ele jamais me censurou ou repreendeu por qualquer atitude errada que eu tenha tomado, confiou em mim sempre, ao longo de toda a nossa convivência. Foi um desbravador, pioneiro na implantação da avicultura de corte no Brasil, um estudioso da sericicultura, diretor no Ministério da Agricultura e jornalista por paixão. No seu DNA, filha, certamente existe toda a cultura que ele lhe transmitiu ensinando-a a ler os melhores clássicos. Mamãe.

    1. Carla Vilhena

      Eu sei bem o quanto ele foi importante pra nós, pra nossa família, para a minha formação e até a Clarissa comentou que admira a forma como ele convivia com todas as correntes… faz muita falta, mas eu sempre penso em como foi um privilégio ter tido ele aqui por tanto tempo. Beijos, mãe!

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