Leda Nagle e a estagiária – como comecei na profissão de jornalista
Carla Vilhena
11 jul 2016


“Vale conferir, com certeza.”

Com esta frase, a jornalista Leda Nagle ficou conhecida nos anos oitenta como a mulher que trouxe informalidade ao jornalismo da Globo, mais especificamente ao Jornal Hoje, bancada que ocupou durante anos, ao lado de outras mulheres (modernidade que até hoje nos deixa admirados). Leda fazia entrevistas aos sábados, com várias personalidades, conduzindo as perguntas de forma a deixar todos – entrevistados e telespectadores – à vontade, como se fôssemos uma roda de amigos conversando.

Conheci Leda aos 16 anos,

quando entrei, como editora de imagens, para o mundo fantástico do telejornalismo. Sonhava apenas ser uma grande editora, como os monstros sagrados que frequentavam as redações à época. Vários deles ainda estão na Globo, e deixaram seu nome escrito na história da televisão brasileira. Eu trabalhava e estudava para entrar na faculdade de Engenharia Mecânica, opção que fiz por ser apaixonada por carros, corridas e motores. Mal sabia que o Jornalismo iria me pegar de jeito, e me fazer mudar completamente de opção naquele mesmo ano.

Um mundo novo

Eu trabalhava para os jornais da hora do almoço: RJTV primeira edição, Globo Esporte e Jornal Hoje. Gostava particularmente dos assuntos internacionais do JH, e costumava editar junto com a mítica Cristina Franco, consultora de moda que tinha a particularidade de se vestir sempre de preto. O conjunto formado por suas roupas e cabelos muito negros era algo que chamava a atenção por toda parte. Jamais entendi como uma pessoa que falava de moda podia se limitar a uma só cor (ou à ausência dela). Mas o talento de Cristina era inegável.

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Encantada com o jornal, eu seguia Leda Nagle até o estúdio, curtindo cada palavra, cada gesto daquela grande apresentadora. Sem coragem de abordá-la, mantinha uma distância respeitosa, enquanto tentava disfarçar minha presença com algum artifício; buscar uma fita de edição ou falar com alguém da supervisão.

Editores de imagem, ainda mais os quase estagiários como eu, não eram admitidos dentro dos estúdios. O ambiente era preservado ao máximo, apenas com os profissionais diretamente envolvidos, para que não houvesse problemas durante a exibição dos telejornais. Da porta, eu tentava enxergar a bancada, os cenários, as câmeras enormes, pelas frestas ou pelo pequeno visor quadrado de vidro.

Você é a famosa “queeeemmmmm”?

Na época, as novelas também eram gravadas no prédio do Jardim Botânico, ainda não havia os estúdios Globo (ex-Projac), em Jacarepaguá. Uma vez, num intervalo de gravações, fui pé-ante-pé conhecer o estúdio onde se gravava a novela “Vereda Tropical”.

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Ninguém à vista, fui entrando devagarinho e observando aqueles cenários que pareciam uma casa de boneca, daquelas sem a parede da frente, só com os lados e o fundo, pra gente poder brincar. Distraída, nem percebi o produtor que se aproximou e falou junto ao meu ouvido (para me assustar MUITO!):

– E VOCÊ, É A FAMOSA QUEEEEEEMMMMMM???

Não preciso dizer que saí de lá no maior pinote e nunca mais tentei voltar…

Realizando um sonho

Voltando agora ao Jornal Hoje. Um dia, quando eu seguia minha rotina de inventar alguma desculpa para rodear a entrada do estúdio, Leda se voltou e perguntou para mim:

– Você quer assistir o jornal lá de dentro?

Nem acreditei no que ela estava me propondo. E continuei não acreditando quando ela abriu a porta, me fez entrar (ninguém ousou dizer nada) e sentar literalmente aos pés dela, junto à bancada do Jornal Hoje.

Foi uma experiência e tanto. Pela primeira vez, eu via o teleprompter, aparelho que projeta na frente da lente da câmera os textos do jornal; os papéis – laudas, scripts de jornal – sendo trazidos por assistentes e entregues bloco a bloco nas mãos dos apresentadores. Os VTs sendo anunciados, câmeras sendo indicadas, a luz vermelha indicando que o jornal estava no ar e os momentos finais das reportagens informados aos apresentadores (“atenção, dez segundos! ”).

Aquele lugar mágico me cativou. Senti a adrenalina correndo pelas veias quando faltava pouco para entrar no ar, a atenção dos jornalistas enquanto as reportagens mostravam os fatos do dia, a simpatia de Leda sorrindo para a câmera, de uma forma tão autêntica, como se pudesse ver, lá do outro lado, quem iria receber aquele sorriso. Fui arrastada para aquele mundo como se tivesse nascido ali. E decidi: ninguém me tiraria mais, nunca mais, daquele sonho.

Veja aqui o vídeo que gravei para o aniversário do Jornal Hoje:









19 comentários


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  1. Bernadete de Lourdes Vicente

    Que linda história! Vi as imagens da mocinha tímida atrás da grande estrela…

  2. Danilo F. Martins

    Minha namorada me indicou esse post. 😀

    Sou estudante de jornalismo (metade do curso o/) e pretendo seguir pela área da edição. Achei muito legal você ter começado assim também.

    Parabéns pelo ótimo trabalho e ótimo texto.

  3. JAMERSON PEREIRA

    AMEI A LEDA NAGLE SOU ADMIRADOR,E FANZAÇO DELA !!! QUE HISTÓRIA BACANA,QUE COISA BONITA;MUITO LEGAL CARLA VILHENA VC ME SURPREENDEU EM TUDO CONFESSO. PARABÉNS MUITA LUZ,MUITA PAZ,CONQUISTAS,E REALIZAÇÕES EM SEU BLOG E EM SUA VIDA CLARO. BJOS !

  4. JAMERSON PEREIRA

    PRECISANDO DE DICAS,E INTERAGIR COM OS AMIGOS,E AMIGAS NO SEU BLOG EU ESTAREI AQUI ABERTO PRA NOS AJUDARMOS.. SOU CHEFE DE COZINHA TENHO 39 ANOS,SOLTEIRO,E ME SINTO BEM COLABORANDO,E SENDO ÚTIL PRO OUTRO FAZENDO A MINHA PARTE COMO SER HUMANO,COMO PESSOA,E TOPARIA SER UM COLABORADOR.. AGUARDO CONTATOS,FELICIDADES,BOA VIAGEM DIVIRTA-SE. JAMERSON PEREIRA !

  5. Fabio

    Parabéns pela escolha de uma profissional gabaritada que foi Leda Nagle! A adrenalina lhe conquistou e ainda deve causar isso pois este é um dos requisitos para se continuar e amar o que se faz…Perdemos uma grande engenheira mas ganhamos uma fantástica jornalista que muito nos orgulha!Que muitos outros sigam seu exemplo , seja em qualquer profissão, com seriedade, humildade e perseverança! 😉

  6. Adriano Oliveira

    Que história linda, Carla! Impossível não viajar nela ao ler as suas palavras. Obrigado por compartilhar essa experiência com a gente!
    Parabéns!!! 🙂
    Bjs

  7. Claudio Marques Vicente Vianna

    Muito legal! A Leda Nagle (não tem um vozeirão e nem é só um rostinho bonito) para mim é a prova de que para estar nessa área do jornalismo o fundamental é ter competência. E isso você tem de sobra!

  8. Junior

    Que show muitooooooo bom! Que humildade a sua hoje uma super estrela homenageando que lhe inspirou, seu sucesso não é por acaso, linda competente e grata. Fico feliz de saber que o sucesso não te subiu a cabeça.

  9. Paulo Sergio

    Nossa que delicia este depoimento !

  10. Eunice Clembo

    Sou fanzoca de Leda Nagle desde aquela época, e sou sua fã também, desde quando vc começou. Te admiro muito !!!

    1. Carla Vilhena

      Somos duas fãs da Leda, como você pôde perceber no meu post. Muito obrigada!

  11. Adriano Henrique

    Carla….

    Eu ainda me lembro, quando, nos anos 1980( eu ainda criança), toda minha família se reunia para assistir ao “Jornal Hoje”, aos sábados, com uma surpreendente entrevista final de Lêda Nagle com importantes personalidades brasileiras…. Bjs!!

    1. Carla Vilhena

      Não é uma delícia recordar isso, Adriano? Eu tenho a mesma lembrança, inclusive do momento em que ela dizia:… “vale conferir, com certeza”. Obrigada pelo comentário, fico feliz que você tenha gostado.

  12. Fernando

    Olá Carla. Sou seu fã. Vivo em Portugal, no Algarve (sul do país), uma região muito bonita de praias…. Parabéns pelos seus textos e trabalho na TV. Deixaria a você como uma sugestão reportagens aqui, mostrando a influência árabe (norte da África) nessa região portuguesa desde a invasão de séculos atrás.
    Obrigado.

    1. Carla Vilhena

      Espero em breve postar uma série sobre Portugal, Fernando! Obrigada por ser um fã de além-mar. Abraço!

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