Junho é uma festa!

Junho é época de festa!

Que o digam Santo Antônio, São Pedro e São João… Tempo de temperaturas baixas e céu limpo. Estrelas brilhando, sol de (quase) inverno, em que a natureza nos convida para programas ao ar livre, sem aquele calor excessivo do verão. E, além disso, tem o meu aniversário!

Esses motivos sempre me fizeram adorar o mês de junho.

Lembro-me da expectativa pelas férias de meio do ano. Do calorzinho gostoso do cobertor (coisa rara no Rio de Janeiro da minha infância). Do frio no ponto de ônibus de manhãzinha, quando brincávamos de soltar vapor d’água pela boca, enquanto aguardávamos o transporte para a escola. Do céu estrelado, coalhado de balões. Nem imaginávamos o risco!

No Rio, faziam sucesso as feijoadas e caldos de mocotó.

Cozidos portugueses, com legumes, abóbora e paio. Sopas de feijão, de batata com alho poró, de ervilhas com bacon. Combinávamos idas ao Cristo Redentor, só para usar roupas de frio, gorros e cachecóis. O ar, muito limpo, dava visibilidade total para admirarmos ainda mais a cidade maravilhosa.

E havia as festas juninas.

Daquelas de igreja, com quermesse, comidas típicas, música de sanfoneiro. Correio elegante, o avô do WhatsApp, para passar recadinhos para os pretendentes. Prisão, com delegado e tudo, que circulava pela festa pegando principalmente as meninas. Barracas de brincadeiras, pescaria, tiro ao alvo, acertar na boca do palhaço. E comíamos de tudo um pouco: pamonha, curau e milho cozido. Salsichão no espeto, cachorro-quente, pastel, caldo de cana com abacaxi (meu preferido). Bolo de Santo Antônio e o pãozinho bento, que garantia fartura, se colocado nos potes de mantimentos.

Festas de subúrbio eram uma atração à parte.

A rua era fechada para a colocação das barraquinhas de comida e brincadeiras. O som não era de sanfoneiro, mas de funk, música que já começava a dominar a zona norte e que hoje se espalhou pelo Brasil. Não o que se faz hoje, com letras censuráveis; apenas um ritmo, batida forte que convidava a dançar.

Sei que não nasci na roça e não conheci as festas juninas autênticas.

Mas não deixo de ter saudades daquelas da minha infância e adolescência. A verdade é que, como o poeta, procuro, em festas de hoje, algo que já não existe mais em mim…

   Profundamente

                                           ( Manuel Bandeira)

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam, errantes

Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.

*

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.
Texto extraído do livro “Antologia Poética – Manuel Bandeira”, Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 2001, pág. 81.

 

Respostas de 8

  1. Eu nasci na roça e me lembro de quando meu avô fazia uma fogueira enorme para S.João. A promessa dele era cada ano fazer um pouquinho maior do que no ano anterior. Os netos piravam naquela brincadeira. Muito frio fazia na fazenda que fica próxima a um rio e a gente se aquecia brincando próximo a fogueira. Depois a gente tentava pular as cinzas, ninguém conseguia claro. Eu lembro que rolava milho e churrasco… e muitos fogos de artifício. Saudades! Quando meu pai morreu, as festas acabaram pq também acabou a alegria da família de se reunir , meu pai era um dos mais festeiros e pirava com as festas do meu avô. Foi um tempo bom, bom demais!!!

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