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DEZ

“Get Out” (Corra)

Críticas sempre serão polêmicas.

Gostamos de uma crítica que reflita o nosso ponto de vista e não gostamos daquela que nos provoca a pensar sobre o lado de lá do muro erguido por nossos conceitos mais arraigados. Por isso, resolvi falar sobre uma crítica que incomodou muita gente: a do filme “Get Out” (Corra), do diretor Jordan Peele. Espero conseguir que, ao menos, algumas pessoas tentem romper essa barreira e exercer o diálogo.

Primeiro, uma breve apresentação.

Trabalhei mais de trinta anos nas principais emissoras de TV brasileiras. Uma vitrine e tanto, exposta a todo tipo de crítica, das mais injustas às mais fundamentadas. Sei a dor que causa uma injustiça, por isso vim aqui trazer esse embasamento à minha crítica. Concordem ou não, aqui está. É uma questão de respeito a quem se interessou pelo tema.

Agora, o contexto.

Há alguns dias, em casa, de folga, abro o Netflix. Aparecem as opções do menu. Meu filho de 14 anos diz:

– Mamãe, esse filme é de terror, “mó” legal.

Era “Get Out” (Corra). Esta foi a única referência recebida sobre o filme do qual não tinha jamais ouvido falar.

(Atenção: a partir daqui, contém spoilers)

Chamei meu marido e começamos a assistir. Depois de dez minutos, meu marido deixou a sala dizendo:

– Já entendi tudo, o cara vai ficar preso na casa, na mão dessa família maluca, e a namorada também está envolvida. No final ele mata todo mundo e se safa. Depois me conta se tem algo diferente disso.

Dez minutos. Foi o suficiente para que o enredo considerado tão original (e que ganhou um Oscar)  fosse destrinchado por meu marido e por mim. Mas eu insisti. Afinal, meu filho disse que era bom.

Personagens óbvios se sucedem na tela. O filho branco fã de luta, agressivo, babaca. O pai pedante. A mãe falsamente solícita que esconde um mistério. O empregado hostil, a empregada nitidamente lobotomizada. Lobotomizada. Só quem não tem referências não reconhece um lobotomizado em um filme. Estranho no Ninho. 1984. Laranja Mecânica. Bicho de Sete Cabeças. Super previsível.

Seguimos adiante e o filme vira uma caricatura de situações de racismo velado. Frases ditas por “brancos repulsivos” tentando engambelar o “bom e autêntico” negro. Tratá-lo com a “polidez hipócrita” de que só um “branco” seria capaz.

Incomodado, o protagonista vê sua tábua de salvação ao perceber um outro homem como ele, que certamente estará se sentindo “excluído” por estar cercado de brancos. Mas, que decepção! Ele não corresponde ao cumprimento padrão que todo negro é obrigado a fazer. Reparem na palavra: “obrigado”. Ou você é assim, ou você está fora.

(Aqui um parêntese. Recebi uma mensagem de um jovem negro que, apesar de adorar música clássica, não podia ouvi-la sem fones, pois seus amigos diziam pra ele parar de ouvir “música de branco”).

Daí pra frente, a sucessão de clichês prossegue, até que a solução encontrada pelo rapaz é matar todo mundo e fugir. “Ah, mas nos filmes ‘de branco’ o final também é assim.”

É, em vários. E eu não os assisto também, por serem péssimos.

Cabe aqui uma observação:

Entende-se que o oprimido queira em muitos casos se apropriar das armas do seu opressor. O pedestre que não consegue atravessar a rua muitas vezes sonha com o dia em que ele também terá um automóvel – para jogar em cima de outros pedestres. Outros, entre os quais me incluo, sonham com o dia em que todos terão educação no trânsito.

Lançar mão de recursos que nos trazem dor para nos vingar de quem nos oprime. Reagir à violência com mais violência. Fechar as portas ao diálogo. Incitar pessoas com discursos de ódio.

Desumanizar pessoas para que seja mais fácil eliminá-las. Não são seres humanos, portanto não merecem viver. São brancos sem alma nem expressão participantes de um sórdido bingo. Não tenha culpa em odiá-los, desejar a morte deles, pois não merecem sua consideração. Lembram de onde já vimos isso?

Uma jornalista e ativista negra me enviou a seguinte mensagem: “Não adianta você andar com negros pra parecer legal. Sabemos que você os usa.”

Um outro ativista com milhares de seguidores postou: “Mulheres brancas que namoram negros estão apenas interessadas em escravos sexuais.”

Outro: “Até prova em contrário, não existe branco anti-racista”.

Contratá-los como empregados? “Sinhazinha”.

Um negro alto executivo ou com um cargo legal, se relacionando bem com os colegas brancos? “Capitão do Mato”.

Um amigo que se alie ao oprimido para ajudá-lo a resolver um conflito? “White saviour”, ou, depreciativamente, “Salvador Branco”.

Que opção restou?

Não era minha intenção entrar nessa seara. A temática do racismo é por demais importante para ser tratada em textos curtos no Twitter. Eu falava, a princípio, da precariedade técnica e criativa de um filme de roteiro previsível e que usava recursos que pareciam saídos de um filme da época dos irmãos Lumière. Exemplo: a cena do “mergulho profundo” do personagem ao ser hipnotizado. Sim, foi angustiante, mas não no sentido pretendido. Angustiante foi ver que alguém teve a coragem de fazer uma representação tão ruim de um mergulho no inconsciente.

“Ah, mas é uma sátira”. “O orçamento foi reduzido”. “É uma ‘obra negra’ e tem que ser vista como tal”.

Seria importante então que o filme “Get Out” (Corra) viesse acompanhado de uma bula com instruções de uso. Ou uma recomendação na sinopse.

Sinto muito dizer, mas pra mim o único espetáculo público que pode ser uma droga e não está sujeito a críticas é o teatrinho de fim de ano dos nossos filhos na escola.

(Mais um parêntese para reconhecer a coragem de várias pessoas – negras e brancas – que ousaram ir contra a militância raivosa e parar pra refletir que talvez eu não tivesse gostado do filme, apenas.)

Aguardo sugestões de como podemos restabelecer o diálogo antes do Apocalipse.

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por Carla Vilhena
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COMENTÁRIOS
(1) Comentário(s)
  1. Luiz Silva disse:

    Texto fantástico. Estabeleceu uma linha de raciocínio perfeitamente lógica, racional e ponderada. Sintetizou meu ponto de vista quanto a esse tema.

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